sexta-feira, 24 de julho de 2026

ILHA DAS FLORES

 

Ilha das Flores foi minha primeira lotação no Tribunal de Justiça de Sergipe. Distrito da Comarca de Pacatuba(sede).  Tive a oportunidade de escolha entre ela e o distrito de Canhoba da Comarca de Propriá. Ambas pequenas cidades do interior, célebres por aguerridas disputas politicas no baixo São Francisco sergipano. Nosso velho Chico, outrora rio dos currais dos vaqueiros, tangerinos das grandes boiadas da poderosa Casa da Torre. Muito antes e por muito mais tempo fora o Opará , o Rio -Mar dos povos Tupis: Caetés e tupinambás. 

Este é o seu nome de nascimento dado por sua mãe Terra. Por seus filhos e irmãos. Assim, correram suas águas: Opará!... Opará... Opará! Um rio de grandeza oceânica, reverenciado, sagrado!... até o seu batismo cristão num certo 04 de outubro de 1501 pelo navegante Americo Vespúcio. Opará um Deus “pagão” convertido em São Francisco, santo é bem verdade, mas súdito da Coroa portuguesa. Hoje, doente, apeado por barragens, intoxicado pelos anos, suas aguas, ainda, correm para o mar. Sem a força de ontem: Opará... Opará... não um Rio-Mar, mas, sim, um Mar-Rio. O mar adentra suas entranhas mudando toda sua fauna e flora.  

 Deixando as divagações de lado, deixei me seduzir pelo lirismo de Ilha das Flores e optei por esta lotação. Acertada escolha, fui muito feliz, a maioria dos colegas que tive viraram amigos que carrego até hoje no altar da lembrança. Eu e demais servidores fomos acolhidos pelos colegas naturais da cidade como José de Leoncio e Dona Dalva Sandes(Ilha), donas Dorinha e Rosenira(Pacatuba) e donas Josefa Benedito, Ailma e Edivania Pinheiro( Brejo Grande). 

Diante da realidade do trabalho constatei de pronto que o povo de lá não era dado a lirismos, preferiam a lide. Em meu primeiro dia numa audiência de conciliação, os litigantes discutiam  o pagamento ou não de uma prestação de serviço realizado. Não se discutia a prestação, incontroverso o valor e presteza do serviço. Era sobre o pagamento. Um dizia ter pago o outro não recebido. Meu primeiro emprego. Minha primeira audiência. Via aquilo tudo admirado! Alguém estava mentindo e diante do Juiz! Não me lembro do resultado, mas também não vem ao caso nem ao mérito.

Um município que vivia de arroz, coco, pescaria e um pequeno comercio. Dependia muito da prefeitura e sentia-se isso latente no animo do povo. Das três cidades que compunham a Comarca: Pacatuba(sede), Ilha das Flores(distrito) e Brejo Grande(distrito) era a mais violenta. 

Me veio a mente, agora, o caso de um cidadão que tinha dois processos cíveis. Num era requerente numa controvérsia sobre a propriedade de uma moto. Noutro era requerido em Ação de Investigação de Paternidade. Numa destas coincidências da vida os dois processos foram julgados na mesma semana. Quando o oficial de justiça foi intimá-lo das sentenças. Ele, ansioso, indagou: que notícias me trazes. O oficial de imediato respondeu: trago duas! Uma boa... e outra ruim... A ruim é que o senhor perdeu a moto... a boa que ganhou um filho!

Algumas pessoas adoravam ir ao Forum duas ou três vezes por semana. Eram um deles “ Zeca Diabo” credor de muita gente. Graças à Deus procurava o judiciário! Memória é que não se perde no tempo, se guarda.

O tempo é um Deus! A vida um oceano de encontros e desencontros... um Rio-Mar... um Opará! Saudade é oração silente no altar do coração. Minhas águas correm ao encontro dos oceanos: Felipe Sampaio, Alex Serra Carvalho, Anajose de Araújo Rocha e os Doutores Alicio de Oliveira Rocha Junior e o saudoso Marcel Maia Montalvão.


Tiago Carvalho, 24/07/2026, Aracaju/SE

 

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