Morei
minha vida inteira no Salgado Filho, vi com certo espanto suas transformações,
pelo menos nos últimos quarenta anos. Outrora se diria que tenho meia idade, não
desejo chegar a idade inteira. Infância feliz correndo pelas ruas do bairro,
brincando de pega-pega, se esconder, elefante colorido, queimado, jogar bola e
tantas outras brincadeiras e jogos que nossa criatividade e energia ilimitada
inventasse. Algumas eram de época, apareciam, espontaneamente, como bola de
gude. Ninguém sabia como e de repente todos jogavam e trocavam gude. Nas ruas e
escolas. Não tinha o trânsito, nem a violência
urbana de hoje. Íamos á pé para escola, livres, sem medo, assalto quando
acontecia chocava a cidade e era comentário durante vários dias. A violência,
ainda, não era banalizada. Me lembro que num livro de geografia ou OSPB se
dizia que “ as ruas eram dos jovens” , o Brasil era um pais de jovens. Envelhecemos!...
e as ruas não são nem mais dos jovens nem dos velhos! As casas eram de muros
baixos, conheciam-se os vizinhos, muitos tratados por tios e primos. Era uma
festa! As vezes passávamos uma tarde inteira conversando á sombra de alguma amendoeira
ou “pé de mata-fome” que abundavam nas ruas. Tardes que pareciam eternas, o relógio
era a nosso favor, Cronos nos prestava esta deferência. As ruas eram nossas...
doces tardes com sabor de picolé da Cindelandia! Certo era que iam passar os
vendedores de cavaco Chines, quebra-queixo, pipoca, picolé e mais adiante com
rodia e um grande cesto na cabeça, o de pé de moleque! Parece que posso vê-lo,
anunciando como numa poesia:” Saroio, pé de moleque, beiju molhado, malcasado,
sou eu...”. além destes mascates tinha a bodega de Seu Manoel, o português,
onde comprávamos bala e refrigerante e bem depois a lanchonete Mangiere. Aos domingos,
bem cedo, as portas passavam vendedores de fruta e os de caranguejo, este último
com as cordas penduradas as suas costas atravessadas por uma tora de pau. Domingo era dia de caranguejada com a família
reunida no quintal. Se as ruas eram nossas, imagine os quintais!... vasto feudo
da lúdica doméstica, onde brincávamos com nós mesmos. O império da imaginação,
onde vassoura vira cavalo, pente ou escova microfone, e tudo é ressignificado. Cheio
de fruteiras para nosso regalo e quedas! São referencias do bairro: o Batistão,
as praças da imprensa e Tobias Barreto, e o hiper-Gbarbosa, lugares de
sociabilidade numa cidade bem menor que a de hoje. O comercio do centro da
cidade tinha, ainda, importância destacada. Ao longo destes anos mudou muita
coisa, o bairro deixou de ser, predominantemente, residencial para comercial. Os
terrenos baldios viraram prédios, as casas estão sendo derrubadas para virarem
galerias, ou escritórios de advocacia. As que resistem tem muros altos e cerca
elétrica. Raras são as amendoeiras e pés de mata-fome em suas portas. Mudou muita
coisa... as ruas eram nossas.... era nosso, o bairro e era a nossa rua! Ainda são!
O que não mudou o canto de bem-te-vis á
tarde, voo das maracanãs e gaviões e o
algurio das corujas rasga-mortalha a noite. Ademais, as águas de março, ainda,
enchem os nossos canais e ruas, as mesmas que outrora quando de barro joguei um
barquinho de papel.
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