segunda-feira, 13 de julho de 2026

Salgado Filho, o bairro

 

Morei minha vida inteira no Salgado Filho, vi com certo espanto suas transformações, pelo menos nos últimos quarenta anos. Outrora se diria que tenho meia idade, não desejo chegar a idade inteira. Infância feliz correndo pelas ruas do bairro, brincando de pega-pega, se esconder, elefante colorido, queimado, jogar bola e tantas outras brincadeiras e jogos que nossa criatividade e energia ilimitada inventasse. Algumas eram de época, apareciam, espontaneamente, como bola de gude. Ninguém sabia como e de repente todos jogavam e trocavam gude. Nas ruas e escolas.  Não tinha o trânsito, nem a violência urbana de hoje. Íamos á pé para escola, livres, sem medo, assalto quando acontecia chocava a cidade e era comentário durante vários dias. A violência, ainda, não era banalizada. Me lembro que num livro de geografia ou OSPB se dizia que “ as ruas eram dos jovens” , o Brasil era um pais de jovens. Envelhecemos!... e as ruas não são nem mais dos jovens nem dos velhos! As casas eram de muros baixos, conheciam-se os vizinhos, muitos tratados por tios e primos. Era uma festa! As vezes passávamos uma tarde inteira conversando á sombra de alguma amendoeira ou “pé de mata-fome” que abundavam nas ruas. Tardes que pareciam eternas, o relógio era a nosso favor, Cronos nos prestava esta deferência. As ruas eram nossas... doces tardes com sabor de picolé da Cindelandia! Certo era que iam passar os vendedores de cavaco Chines, quebra-queixo, pipoca, picolé e mais adiante com rodia e um grande cesto na cabeça, o de pé de moleque! Parece que posso vê-lo, anunciando como numa poesia:” Saroio, pé de moleque, beiju molhado, malcasado, sou eu...”. além destes mascates tinha a bodega de Seu Manoel, o português, onde comprávamos bala e refrigerante e bem depois a lanchonete Mangiere. Aos domingos, bem cedo, as portas passavam vendedores de fruta e os de caranguejo, este último com as cordas penduradas as suas costas atravessadas por uma tora de pau.  Domingo era dia de caranguejada com a família reunida no quintal. Se as ruas eram nossas, imagine os quintais!... vasto feudo da lúdica doméstica, onde brincávamos com nós mesmos. O império da imaginação, onde vassoura vira cavalo, pente ou escova microfone, e tudo é ressignificado. Cheio de fruteiras para nosso regalo e quedas! São referencias do bairro: o Batistão, as praças da imprensa e Tobias Barreto, e o hiper-Gbarbosa, lugares de sociabilidade numa cidade bem menor que a de hoje. O comercio do centro da cidade tinha, ainda, importância destacada. Ao longo destes anos mudou muita coisa, o bairro deixou de ser, predominantemente, residencial para comercial. Os terrenos baldios viraram prédios, as casas estão sendo derrubadas para virarem galerias, ou escritórios de advocacia. As que resistem tem muros altos e cerca elétrica. Raras são as amendoeiras e pés de mata-fome em suas portas. Mudou muita coisa... as ruas eram nossas.... era nosso, o bairro e era a nossa rua! Ainda são! O que não mudou o canto de  bem-te-vis á tarde,  voo das maracanãs e gaviões e o algurio das corujas rasga-mortalha a noite. Ademais, as águas de março, ainda, enchem os nossos canais e ruas, as mesmas que outrora quando de barro joguei um barquinho de papel.

 

 

 

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