Quem passasse por Japaratuba em seis de janeiro do presente ano, não imaginaria que esta data é consagrada, há mais de século, a principal festa da cidade. Neste dia de Reis, não se ouviu um roncar de onça, um bater de pandeiro, tamborim ou caixa, um soprar de apito marcando o compasso, uma batucada sequer. Por onde passou o cortejo? Alguém viu o Rei ou Rainha do Cacumbi? Os generais ou embaixadores da chegança? Dona Deusa ou Mateus do Reisado? Alguém viu?... acho que não! Será que os Reis do Cacumbi perderam o cetro e a coroa? Que a chegança em razão de tormenta naufragou? Que “Dona Deusa se casou e acabou-se a amizade que tinha” com Mateus, arruinando por sua vez o reisado? Espero que não!
Por uma questão de conveniência a prefeitura dividiu a “Festa de Santos Reis e São Benedito” em três fases: Religiosa, Festival Arthur Bispo do Rosário e a Parte profana. A primeira destinada as missas e procissão, a segunda as expressões artísticas em geral e a cultura popular e a terceira destinada a grupos “pops” como por exemplo: o “Novo É o Tchan”. Até aí tudo bem, faz parte da política administrativa cultural do Município. O problema é se ter passado o dia de Reis em branco. Gravíssimo desrespeito as tradições.
Ora, com o dia de Santos Reis termina o ciclo natalino de nossas festividades, o período de celebração ao Menino Jesus, data que, supostamente, os três Reis Magos chegaram a Belém trazendo presentes ao Menino Deus! Dia de Reis é dia de se desfazer os presépios, de reisados, pastoris e cheganças saírem em cortejo pelas ruas da cidade, pedindo sala nas casas que montaram os referidos presépios para louvarem o Deus Menino e os Reis Magos do Oriente.
Dia de Reis é dia de cacumbi, taieira e maracatu saírem em cortejo louvando a São Benedito, que, aqui, há mais de século, preferiu ser louvado nesta data! Dia de Santos Reis meu Deus!... consagrado desde então a coroação do rei e rainha do Cacumbi ponto alto das festividades, tamanha sua importância e simbolismo! Incompreensível é que neste ano, o município decretou feriado em razão data ter caído numa quinta-feira, porém, nada promoveu! É feriado pela sacralização da alegria e lúdica e Fé nos Santos Reis e São Benedito. Nada de alegria e fé. Só silencio...
A cultura popular tem seus motivos ensejadores, expressos nos diversos grupos. Indissociáveis, portanto, são a fé e a lúdica. O religioso e a brincadeira. A dança, a missa e a coroação do Rei e Rainha do Cacumbi, trazem, assim, elementos do sagrado cristão europeu e das tradições, religiosas e lúdicas, africanas. Principalmente, da coroação dos Reis de Congo e Congadas.
A sociedade de consumo transforma tudo em produto e todos em consumidores. Tem transformado a cultura popular, bens culturais de natureza imaterial em bens de consumo. O homem é o seu tempo. Existe um turismo cultural, importante que Japaratuba explore seu potencial, que lucre com isto, mais, ainda, os brincantes. Temerário é o desrespeito a tradição, religiosa e lúdica, concentrando as apresentações no Festival de Artes Arthur Bispo do Rosário sob pena de esvaziamento dos bens culturais em mero espetáculo estético.
Afinal, que Santo louva o povo desta terra? O Menino Jesus, os
Reis Magos e a São Benedito. Ou será o “santo do altar da Prefeitura?” “Meu São
Benedito... Meu São Benedito... protegei o Meu Cacumbi“... protegei minha
Chegança, meu Reisado, meu Maracatu! Salve Mestres Curau, Batinga, Beto, Antônio de Sirico do Cacumbi, Mestras Ieda(taieira) e Dona(maracatu) e Mestre Sabal do Guerreiro de Marimbondo! Salve! Salve! Saravá!
Tiago Carvalho Santos, o
Japaratubeiro, 15 de janeiro de 2011.
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