sexta-feira, 24 de julho de 2026

ILHA DAS FLORES

 

Ilha das Flores foi minha primeira lotação no Tribunal de Justiça de Sergipe. Distrito da Comarca de Pacatuba(sede).  Tive a oportunidade de escolha entre ela e o distrito de Canhoba da Comarca de Propriá. Ambas pequenas cidades do interior, célebres por aguerridas disputas politicas no baixo São Francisco sergipano. Nosso velho Chico, outrora rio dos currais dos vaqueiros, tangerinos das grandes boiadas da poderosa Casa da Torre. Muito antes e por muito mais tempo fora o Opará , o Rio -Mar dos povos Tupis: Caetés e tupinambás. 

Este é o seu nome de nascimento dado por sua mãe Terra. Por seus filhos e irmãos. Assim, correram suas águas: Opará!... Opará... Opará! Um rio de grandeza oceânica, reverenciado, sagrado!... até o seu batismo cristão num certo 04 de outubro de 1501 pelo navegante Americo Vespúcio. Opará um Deus “pagão” convertido em São Francisco, santo é bem verdade, mas súdito da Coroa portuguesa. Hoje, doente, apeado por barragens, intoxicado pelos anos, suas aguas, ainda, correm para o mar. Sem a força de ontem: Opará... Opará... não um Rio-Mar, mas, sim, um Mar-Rio. O mar adentra suas entranhas mudando toda sua fauna e flora.  

 Deixando as divagações de lado, deixei me seduzir pelo lirismo de Ilha das Flores e optei por esta lotação. Acertada escolha, fui muito feliz, a maioria dos colegas que tive viraram amigos que carrego até hoje no altar da lembrança. Eu e demais servidores fomos acolhidos pelos colegas naturais da cidade como José de Leoncio e Dona Dalva Sandes(Ilha), donas Dorinha e Rosenira(Pacatuba) e donas Josefa Benedito, Ailma e Edivania Pinheiro( Brejo Grande). 

Diante da realidade do trabalho constatei de pronto que o povo de lá não era dado a lirismos, preferiam a lide. Em meu primeiro dia numa audiência de conciliação, os litigantes discutiam  o pagamento ou não de uma prestação de serviço realizado. Não se discutia a prestação, incontroverso o valor e presteza do serviço. Era sobre o pagamento. Um dizia ter pago o outro não recebido. Meu primeiro emprego. Minha primeira audiência. Via aquilo tudo admirado! Alguém estava mentindo e diante do Juiz! Não me lembro do resultado, mas também não vem ao caso nem ao mérito.

Um município que vivia de arroz, coco, pescaria e um pequeno comercio. Dependia muito da prefeitura e sentia-se isso latente no animo do povo. Das três cidades que compunham a Comarca: Pacatuba(sede), Ilha das Flores(distrito) e Brejo Grande(distrito) era a mais violenta. 

Me veio a mente, agora, o caso de um cidadão que tinha dois processos cíveis. Num era requerente numa controvérsia sobre a propriedade de uma moto. Noutro era requerido em Ação de Investigação de Paternidade. Numa destas coincidências da vida os dois processos foram julgados na mesma semana. Quando o oficial de justiça foi intimá-lo das sentenças. Ele, ansioso, indagou: que notícias me trazes. O oficial de imediato respondeu: trago duas! Uma boa... e outra ruim... A ruim é que o senhor perdeu a moto... a boa que ganhou um filho!

Algumas pessoas adoravam ir ao Forum duas ou três vezes por semana. Eram um deles “ Zeca Diabo” credor de muita gente. Graças à Deus procurava o judiciário! Memória é que não se perde no tempo, se guarda.

O tempo é um Deus! A vida um oceano de encontros e desencontros... um Rio-Mar... um Opará! Saudade é oração silente no altar do coração. Minhas águas correm ao encontro dos oceanos: Felipe Sampaio, Alex Serra Carvalho, Anajose de Araújo Rocha e os Doutores Alicio de Oliveira Rocha Junior e o saudoso Marcel Maia Montalvão.


Tiago Carvalho, 24/07/2026, Aracaju/SE

 

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Salgado Filho, o bairro

 

Morei minha vida inteira no Salgado Filho, vi com certo espanto suas transformações, pelo menos nos últimos quarenta anos. Outrora se diria que tenho meia idade, não desejo chegar a idade inteira. Infância feliz correndo pelas ruas do bairro, brincando de pega-pega, se esconder, elefante colorido, queimado, jogar bola e tantas outras brincadeiras e jogos que nossa criatividade e energia ilimitada inventasse. Algumas eram de época, apareciam, espontaneamente, como bola de gude. Ninguém sabia como e de repente todos jogavam e trocavam gude. Nas ruas e escolas.  Não tinha o trânsito, nem a violência urbana de hoje. Íamos á pé para escola, livres, sem medo, assalto quando acontecia chocava a cidade e era comentário durante vários dias. A violência, ainda, não era banalizada. Me lembro que num livro de geografia ou OSPB se dizia que “ as ruas eram dos jovens” , o Brasil era um pais de jovens. Envelhecemos!... e as ruas não são nem mais dos jovens nem dos velhos! As casas eram de muros baixos, conheciam-se os vizinhos, muitos tratados por tios e primos. Era uma festa! As vezes passávamos uma tarde inteira conversando á sombra de alguma amendoeira ou “pé de mata-fome” que abundavam nas ruas. Tardes que pareciam eternas, o relógio era a nosso favor, Cronos nos prestava esta deferência. As ruas eram nossas... doces tardes com sabor de picolé da Cindelandia! Certo era que iam passar os vendedores de cavaco Chines, quebra-queixo, pipoca, picolé e mais adiante com rodia e um grande cesto na cabeça, o de pé de moleque! Parece que posso vê-lo, anunciando como numa poesia:” Saroio, pé de moleque, beiju molhado, malcasado, sou eu...”. além destes mascates tinha a bodega de Seu Manoel, o português, onde comprávamos bala e refrigerante e bem depois a lanchonete Mangiere. Aos domingos, bem cedo, as portas passavam vendedores de fruta e os de caranguejo, este último com as cordas penduradas as suas costas atravessadas por uma tora de pau.  Domingo era dia de caranguejada com a família reunida no quintal. Se as ruas eram nossas, imagine os quintais!... vasto feudo da lúdica doméstica, onde brincávamos com nós mesmos. O império da imaginação, onde vassoura vira cavalo, pente ou escova microfone, e tudo é ressignificado. Cheio de fruteiras para nosso regalo e quedas! São referencias do bairro: o Batistão, as praças da imprensa e Tobias Barreto, e o hiper-Gbarbosa, lugares de sociabilidade numa cidade bem menor que a de hoje. O comercio do centro da cidade tinha, ainda, importância destacada. Ao longo destes anos mudou muita coisa, o bairro deixou de ser, predominantemente, residencial para comercial. Os terrenos baldios viraram prédios, as casas estão sendo derrubadas para virarem galerias, ou escritórios de advocacia. As que resistem tem muros altos e cerca elétrica. Raras são as amendoeiras e pés de mata-fome em suas portas. Mudou muita coisa... as ruas eram nossas.... era nosso, o bairro e era a nossa rua! Ainda são! O que não mudou o canto de  bem-te-vis á tarde,  voo das maracanãs e gaviões e o algurio das corujas rasga-mortalha a noite. Ademais, as águas de março, ainda, enchem os nossos canais e ruas, as mesmas que outrora quando de barro joguei um barquinho de papel.

 

 

 

domingo, 12 de julho de 2026

Um dia de Reis?

 

Quem passasse por Japaratuba em seis de janeiro do presente ano, não imaginaria que esta data é consagrada, há mais de século, a principal festa da cidade. Neste dia de Reis, não se ouviu um roncar de onça, um bater de pandeiro, tamborim ou caixa, um soprar de apito marcando o compasso, uma batucada sequer. Por onde passou o cortejo? Alguém viu o Rei ou Rainha do Cacumbi? Os generais ou embaixadores da chegança? Dona Deusa ou Mateus do Reisado? Alguém viu?... acho que não! Será que os Reis do Cacumbi perderam o cetro e a coroa? Que a chegança em razão de tormenta naufragou? Que “Dona Deusa se casou e acabou-se a amizade que tinha” com Mateus, arruinando por sua vez o reisado? Espero que não! 

Por uma questão de conveniência a prefeitura dividiu a “Festa de Santos Reis e São Benedito” em três fases: Religiosa, Festival Arthur Bispo do Rosário e a Parte profana. A primeira destinada as missas e procissão, a segunda as expressões artísticas em geral e a cultura popular e a terceira destinada a grupos “pops” como por exemplo: o “Novo É o Tchan”. Até aí tudo bem, faz parte da política administrativa cultural do Município. O problema é se ter passado o dia de Reis em branco. Gravíssimo desrespeito as tradições.

 Ora, com o dia de Santos Reis termina o ciclo natalino de nossas festividades, o período de celebração ao Menino Jesus, data que, supostamente, os três Reis Magos chegaram a Belém trazendo presentes ao Menino Deus! Dia de Reis é dia de se desfazer os presépios, de reisados, pastoris e cheganças saírem em cortejo pelas ruas da cidade, pedindo sala nas casas que montaram os referidos presépios para louvarem o Deus Menino e os Reis Magos do Oriente.  

Dia de Reis é dia de cacumbi, taieira e maracatu saírem em cortejo louvando a São Benedito, que, aqui, há mais de século, preferiu ser louvado nesta data! Dia de Santos Reis meu Deus!...  consagrado desde então a coroação do rei e rainha do Cacumbi ponto alto das festividades, tamanha sua importância e simbolismo! Incompreensível é que neste ano, o município decretou feriado em razão data ter caído numa quinta-feira, porém, nada promoveu! É feriado pela sacralização da alegria e lúdica e Fé nos Santos Reis e São Benedito. Nada de alegria e fé. Só silencio... 

A cultura popular tem seus motivos ensejadores, expressos nos diversos grupos. Indissociáveis, portanto, são a fé e a lúdica. O religioso e a brincadeira. A dança, a missa e a coroação do Rei e Rainha do Cacumbi, trazem, assim, elementos do sagrado cristão europeu e das tradições, religiosas e lúdicas, africanas. Principalmente, da coroação dos Reis de Congo e Congadas.

A sociedade de consumo transforma tudo em produto e todos em consumidores. Tem transformado a cultura popular, bens culturais de natureza imaterial em bens de consumo. O homem é o seu tempo. Existe um turismo cultural, importante que Japaratuba explore seu potencial, que lucre com isto, mais, ainda, os brincantes. Temerário é o desrespeito a tradição, religiosa e lúdica, concentrando as apresentações no Festival de Artes Arthur Bispo do Rosário sob pena de esvaziamento dos bens culturais em mero espetáculo estético. 

Afinal, que Santo louva o povo desta terra? O Menino Jesus, os Reis Magos e a São Benedito. Ou será o “santo do altar da Prefeitura?” “Meu São Benedito... Meu São Benedito... protegei o Meu Cacumbi“... protegei minha Chegança, meu Reisado, meu Maracatu! Salve Mestres Curau, Batinga, Beto, Antônio de Sirico do Cacumbi, Mestras Ieda(taieira) e Dona(maracatu) e Mestre Sabal do Guerreiro de Marimbondo! Salve! Salve! Saravá!

Tiago Carvalho Santos, o Japaratubeiro, 15 de janeiro de 2011.

 

sexta-feira, 10 de julho de 2026

O que contam os Autos?

 

Tão antiga quanto a humanidade é a escravidão, porém, a escravidão moderna e transatlântica deu novos contornos e dimensões trágicas a referida Instituição. Determinou a ética da sociedade brasileira por cerca de três séculos e, ainda, tem reflexos na estrutura social e psíquica brasileira. Inclusive, com repercussão na esfera pública, quanto ao exercício de direitos e garantias fundamentais por parte da população afrodescendente. Vaticinou o abolicionista Joaquim Nabuco em fins do século XIX que a escravidão seria uma Instituição que marcaria por séculos vindouros nossa sociedade.

Toda sociedade escravocrata é tensa, tendo os senhores medo de rebelião dos escravizados que mantem e estes por sua vez, medo de seus senhores, haja vista, as violências e abusos sofridos e, por ter subjugada a liberdade por uma Instituição tão cruel e anti-natural à condição humana. Assim, natural que haja resistência e luta pela liberdade por partes destes. Seja por Alforria espontânea ou comprada, por processos judiciais de escravidão ilegal ou quilombos. São homens e mulheres com vontade própria, sentimentos, valores, dignidade. Sendo muitos Reis, Rainhas, médicos, mestres, grande sacerdotes, nobres em sua terra natal. Escravizados aqui no Brasil.

O auge da economia açucareira em Sergipe foi o século XIX, tendo como protagonistas os vales do Cotinguiba e Japaratuba. Dentre outras, as Villas de Santo Amaro das Brotas, Laranjeiras, Maruim, Rosário e Japaratuba foram as que mais prosperaram. Pois bem, os presentes autos contam a Epopeia que Pedro Africano travou contra o Bacharel Leandro Ribeiro de Siqueira Maciel na luta por liberdade. Um dos homens mais importantes de seu tempo na Provincia de Sergipe, destacado no Império, estendendo-se seu poder até o início da República onde fora Senador. Senhor dos Engenhos: Serra Negra, Entre -Rios, Gericó e Lages, entre as Vilas de Rosário e Japaratuba.

Pedro , Africano, em 16/04/1880 na vila de Curral de Pedras( atual Gararu) perante o Juízo daquela Comarca ajuizou “Ação Sumária de Liberdade” contra João Francisco de Mello residente naquela Vila, fundamentando seu direito no art. 1º da lei de 07 de novembro de 1831 e artigo 10 do decreto de 12 de abril de 1832 que dá regulamento para a execução da citada lei. No Interrogatório do Africano Pedro, o requerido pediu dispensa de assistir o referido ato ‘’por o escravizado não lhe pertencer e sim ao Dr Leandro,  a quem outrora vendido desde o dia 10 de dezembro do ano próximo passado, cuja escritura fora passada naquele dia na Vila de Traipu – Alagoas, nesta em lugar do comprador, dito Dr Leandro, o professor José Casemiro para o comprador e tanto assim, que este ano mesmo já havia mandado dar baixa no dito escravo, na matricula na Vila de Ilha do Ouro” (Porto da Folha) .

Em sua qualificação, Pedro – “disse chamar-se Pedro de idade de 54 anos, mais ou menos, solteiro, que ignorava a filiação, conquanto tinha alguma lembrança de seus pais, todavia, por ser muito tenro quando de saiu de sua patria dahi não se recorda por isso dos mesmos, que a sua profissão é de xxxx, natural da Africa e lugar denominado Congo.” Que ignorava o tempo em que saiu de sua terra e o tempo de chegada no Brasil. Lembrando, apenas, de embarcar com outros cativos e passado por vários senhores, alguns negociantes de escravos e, seguindo para o engenho Ilha do Mato, num grupo de 20 escravizados, quando tinha a idade de oito anos. Disse, ainda, que o barco chamava-se Flor do Rio e que ele e outros companheiros “vieram destinados ao coronel José Rodrigues Dantas”. Dai em diante passa ao Senhor João Francisco de Melo e finalmente a Leandro Ribeiro de Siqueira Maciel.

Ainda, na Comarca de Currais de Pedras (Gararu) foram-lhe nomeados curador Francisco José da Silvera e Souza e  depositário João Nepomuceno. Este ultimo declinou  o encargo alegando nulidade ao processo.

Em sua defesa o Dr Leandro Maciel, por seu procurador João Francisco de Melo, alegou nulidade ao processo, arguindo falta de intimação e incompetência do Juízo. No seu dizer: “ Argui nulidade da ação de liberdade, uma vez que a ação de liberdade não pode ser ingressada sem a ciência do seu senhor do libertando e nem também pode correr em foro alheio da residência do seu Senhor, como comprova da juntada escritura de compra e venda juntada”. Alegando que “ “mora em Rosário, seu foro civil por onde se poderia ter o curso do processo, logo, nulo todo o feito praticado perante este juízo a ação proposta do Capitão Silveira e Souza, também sem efeito a curadoria dada, a imediata entrega do seu escravo, por ser seu legítimo senhor,” cobrando, ainda, do curador indenização pelo tempo que ficou com Pedro Africano!

Deferida a arguição de Incompetência do Juízo. Feita Remessa ao Juiz Municipal da Vila do Rosário. Destaca-se aqui que nesta Villa, doutor Leandro R. Siqueira Maciel e sua família exerciam a época o domínio politico. Num tempo que Juízes e demais cargos públicos não ingressavam por concurso, mas, sim, indicação politica do donatário do poder local. Tampouco, tinham prerrogativas e garantias como hoje.  Aqui nesta comarca dois curadores declinaram da nomeação alegando possuírem outros encargos públicos. Até o escrivão declarou-se suspeito, alegando ser amigo do Requerido! O que lhe valheu ADVERTÊNCIA do Juiz de Rosário por retardar o feito sem motivo legal e o andamento do processo,  advertindo-lhe, ainda, por ter dado despacho de suspeição nos autos, sendo sua obrigação dar concluso ao Juiz suplente, ficando seis meses os autos distribuidos e paralisados.

Em 15/06/1881 foi remetido ao “Juizo de Missão de Japaratuba” – devido nova demarcação territorial da Província de Sergipe – tendo o engenho Entre-Rios pertencente a Rosário, passado a pertencer à Missão de Japaratuba, residência do Senhor Leandro Siqueira Maciel. A partir daí o presente feito se processa nesta Vila e Comarca, também, zona de influência politica do Doutor Leandro e família. Aqui o Juiz titular, 1º, 2º e 3ª suplentes se julgam suspeitos em razão de amizade, problemas de saúde e parentesco, respectivamente. O terceiro suplente faz remessa ao Presidente da Câmara Municipal, que naquele período equivalia as funções do prefeito. O qual faz nova nomeação de curador e depositário. Não constando dos autos aceitação ou não. Em 15/02/1883, o escrivão de Japaratuba, certifica que não fez conclusão ao feito em razão de todos os juízes declararem-se suspeitos. É o ultimo ato processual constante dos autos que finda sem uma sentença.

O que contam os Autos? A luta pela liberdade de Pedro Africano, homem de 54 anos que desde os oito fora escravizado, sendo raptado em sua terra natal na região do Congo, Africa. A historia de seu infortúnio por ter passado pelas mãos de vários senhores e travado uma luta judicial por três comarcas contra um grande senhor de seu tempo. Entre suspeições de juízes, curadores e depositários. Num processo que termina sem sentença! Ou não termina?...

Conta a historia de uma nação forjada na escravidão e injustiça social. Onde a maioria da população brasileira, negra, ainda, resiste e luta para exercer seus direitos fundamentais e cidadania!  Luta para ter maior representatividade seja nas Universidades e em cargos públicos.

A alforria no século XXI se dá pelo acesso ao direito a educação... o processo termina sem sentença... ou não termina? O que nos conta os autos?... Tiago Carvalho, 25/09/2025, aju/SE

 

sábado, 2 de janeiro de 2010

Luxuria!

Ascende a lua

Ao canto da rua escura

Luzia! A lustrar

A rua de ilustre gente

De pedra lusa

Na janela tua

Nua à dançar

Numa moça fartura

Meu vagabundo olhar

Abraça-te musa

Um rastro de luz

Um luxo de lastro

Um sobrado de putas

Luxuria vadia!

Para os males a cura

Tiago Carvalho

Aracaju, 27/ 01/ 02

Rápido, repente, árido


De repente a toada corre solta

À toa, quebrando o silencio do sertão

Rasgando a caatinga como uma serpente

De repente o homem

Se sente como um boi no mato,

Bravo, que não se põe canga

Valente

De repente cai ao chão árido

O sangue d’um inocente

Escorre então um suor frio no rosto

Um orvalho salobro e fino

No olhar de choro

Do morto, carente

Tiago Carvalho

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Carta para Duzinho ou para as águas do Japaratuba-Mírim

Japaratuba: O grande e o mirim, o pequeno. “ O rio de varias voltas” que margeia nossas vidas. Eduardo: o velho e o moço. Correntes dagua deste velho rio que movem o engenho de minhas lembranças, fertilizam as várzeas de minha memória. Eduardo, o moço, Duzinho, querido primo-irmão, amigo de infância. Um romântico incorrigível, da estirpe de “Dom Quixote”. Sempre falava a ele que seria melhor se fossemos da de “ Dom Juan” nos evitaria maiores sofrimentos, mas não se é possível mudar a natureza de algo sem que este deixe de ser o que é e se torne outro. Nunca mudamos. Sem dúvida uma das melhores pessoas que já conheci. Em poucos a túnica de anjo caía tão bem quanto nele. E acho que ele nem acreditava em anjos e deve estar rindo de mim neste momento. Mas para mim você é um anjo meu querido irmão. Do barro que tu foi feito, meu caro, nos resta muito pouco. Deus só o utiliza em poucas e especiais ocasiões. Espírito cristalino, moralmente rígido, ético, honesto e puro. Conversávamos muito por sermos parecidos: tímidos, teimosos e românticos. Compartilhava com ele um sentimento de inadequação diante da realidade. Ele transpunha os terríveis muros da realidade com suas revistas e desenhos, era um exímio desenhista, terreno onde dava vazão a sua necessidade lúdica. Tinha alma de poeta. Veio ao mundo num 10 de Fevereiro e por sua pureza e ligação a sua saudosa mãe, acho que era de Oxalá e Iemanjá. Era de ar e água. Das Águas de Oxalá, do Japaratuba e do mar de mãe Janaina. Acho que ele também não acreditava nestas coisas e deve achar que perdi, por completo, o juízo. Bom filho, irmão, primo e amigo. Já me apercebi do mundo com a sua presença quando passava minhas férias de julho e janeiro em sua casa em Japaratuba. Nossa Japaratuba que não tem “calçadão” e ruas “asfaltadas” manifestação de uma falsa modernidade. Japaratuba das festas de Reis na praça da feira, com carrossel, parquinho e tudo mais bem na porta de casa. Japaratuba dos reisados, do Cacumbi de Batinga e Maracatu de Dona subindo a rua do Jatobá, da procissão dos motoristas, da alegria contagiante de “Birrinho”, do “velho Cabo” arrumando e comandando a feira, das conversas na porta com “Maria de Rochinha” e das inocentes guerras de cabacinhas. Olho para o quintal, meu irmão, aquele imenso quintal, parecia tão grande e era, pois supria nossas necessidades, e te vejo Duzinho... correndo, caindo, chorando, sorrindo, brincando de se esconder, de manja, elefante colorido, de nossas “ Olimpíadas”. Lembro-me de você entre os seus: Memeu, Toninho, Jairo, Esther, Esdras, Aline e Júnior de Valter, Sara, Graziela, Fatinha, Jefinho, Robinho, Gilnei, Jéssica, Davi, Itamar, Bernado, Helder, dentre tantos outros irmãos, primos e amigos que te amaram e continuam te amando. O Japaratuba está cheio meu irmão, o grande e o mirim, suas várzeas encharcadas desde a nascente no Tamanduá até a Boca da Barra em Pirambu. Uma coisa linda, as águas gordas do rio de varias voltas. Das voltas de nossas vidas desde um 10 de fevereiro de 1980... O mundo era demasiado pequeno para a vazão de sua honradez e bondade. Acabaste de desencarnar neste mês de maio. Saíste desta vida-guerra imaculado. Uma Glória. Mas creio na eternidade do espírito, o seu já é antigo, cumpriu um resto de jornada que faltava. Quando chegar a minha vez de desencarnar espero que seja uma das primeiras pessoas que eu re-encontre no plano espiritual. Assim sendo é um sinal que em vida terrena procedi bem. Eduardo, o velho, o Dudu. Eduardo, o filho, o moço Duzinho, suas águas encontraram o mar. Ademais, meu querido “irmão”, o Japaratuba esta cheio, o grande e o mirim, mas para mim ele secou um olho dagua.

Tiago Carvalho Santos, Aracaju, 15 de junho de 2009.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Quereu... quereu... se não quereu... despache eu...

Quando ouvimos falar do Oriente nos vem logo em mente conflito, guerra, fanatismo religioso, petróleo, pobreza e um mundo totalmente estranho, diverso e distante. Não imaginamos quantos de nossos hábitos cotidianos têm origem Oriental. O hábito de tomar chá, sentar em esteiras, de fazer cafuné ou de andar á rua com guarda-sóis ou sombreiro. Nossos quintais estão cheios de fruteiras de origem oriental que de tão aclimatadas parecem-nos nativas, nacionais como as mangueiras, jaqueiras, coqueiros e pés de fruta-pão. Algumas como se vê das mais palatáveis ao gosto brasileiro. É árabe a azulejaria nas casas, em especial nos banheiros. A preferência por cores vistosas nas roupas e temperos picantes na cozinha. Também são orientais o cravo, a canela, a pimenta, como também são o cuzcuz e o arroz doce. No simples ato de vender, negociar herdamos muito dos árabes: nas feiras livres a forma de dispor os produtos espalhados no chão ou até mesmo de chamar a clientela gritando, anunciando o melhor preço. Para não falar na arte de pechinchar. Outro aspecto é o de mercadores ambulantes, que batem a nossa porta e que foram tradicionalmente chamados de “mascates” palavra também árabe. Não só esta forma de se vender ás portas das casas, mas o simples fato de se anunciar em porta alheia batendo palmas. Pois bem, Japaratuba cresceu a sombra dos antigos Engenhos-Bangüês: como o Rio Vermelho, Riacho-Preto, Pontal, Timbó, Saco, São João, Cabral, dentre tantos outros. Esta forma de fabrico de açúcar também é mourisca. Foram legítimos representantes da mercancia ambulante no passado em Japaratuba: Dona Joana do Mungunzá, que morava na rua dos “Quadros” e vendia ás portas Mungunzá e arroz-doce; Dona Delia que morava na Mirinduba, vendia amendoim cozido; saía pelas ruas da cidade com um cesto na cabeça anunciando: “ olhe o amendoim... olhe o amendoim cozido no leite de vaca e escorrido na manteiga...” . Também é desta época o inolvidável “Leó da Pipoca” recentemente falecido que atravessou gerações e além de pipoca vendia quebra-queixos. Por ultimo deixei para falar de Merenciana, uma senhora negra, baixa e bunda de Tanajura, mais conhecida por “ Quereu”, pois, saía pelas ruas de Japaratuba com seu cesto na cabeça cheio de frutas, anunciando ás portas das casas: “quereu... quereu... se não quereu... despache eu...”. Saudades ... saudades dos tempos que não vivi... da Japaratuba mítica e seus heróis anônimos. E que olhemos os orientes dentro de nós, nas nossas praças, casas, cozinhas e quintais, nos gostos, sabores e cores. Salamaleque.

Tiago Carvalho, 06 de setembro de 2009.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Benquerença

Benquerença é nascedouro de amor
Dor de gostar de sofrer
Bem-querer sem fim e sem retorno
É saudade de lembrar de você

Benquerença é vistosa fantasia
D"um carnaval solitário
Calvário d" um triste Arlequim
Das cinzas de quarta-feira sem pecado

Benquerença é ofertório imaginário
Oratório de um único santo
Crença de um amor de sonho
É amor de amar bem calado

Tiago Carvalho, dia da Proclamação da Republica de 2008.

sábado, 19 de julho de 2008

DI ADO AMIGO

Dia 20 de julho, dia do amigo, mais uma data que, a convenção ou conveniência, comercial criaram para celebração de seus fins, que não são outros senão o lucro. A sociedade de bens consumo nos faz criar estas tolices. Uma sociedade formada, em grande parte, por pessoas vazias, alienadas, cujos maiores sonhos, “sonhos de consumo” diga-se de passagem, é consumir. Numa sociedade que cultua a cultura de massa, as pessoas em sua maioria, perdem sua singularidade, sua individualidade, ou seja, perdem o que as tornam seres especiais. Decaem do status de individuo para o de sujeito. Esta sistemática massificação do ser, ou sujeição do individuo, em ultima analise traz conseqüências gravosas à sociedade. O sujeito perde sua iniciativa, sua capacidade inventiva, seu poder de criação, o qual é preterido à formulas prontas, pré-moldadas. Busca-se a felicidade nestas malditas formulas, seja em qualquer relação deste sujeito com o corpo social. Se é na religião, na ligação com o divino, buscam-se orações pré-moldadas, formulas impessoais e mecânicas, de se falar com Deus. Se fosse ele jamais daria ouvido a estas tolices, a esta fé de tabuada. Faria uma prova dos noves... Noves fora... Nada! No quesito diversão não é bom nem falar, estamos indo de mal a pior. Os carnavais, por exemplo, que tinham como característicos, a diversidade de fantasias, multiplicidade de cores, a riqueza musical, etc. em sua maioria nos grandes e médios centros estão reduzidos a blocos de trio-elétrico, ou seria melhor chamá-los de procissão, uniformizada com abadás, de celebração ao Deus Baco. Ora caros amigos, não há nada mais subjetivo que nossas fantasias, mas mesmo assim, nestes períodos de liberdade intima, o que vemos é a extravagância da intimidade manifestar-se em forma de beijos impessoais! O popular e modernamente conhecido “ficar”, a banalização do beijo, que em sua natureza é tão pessoal e intimo, a banalização do amor! Sim, amor! Este talvez o mais banalizado dos sentimentos. Todo mundo ama... da boca para fora! Mas, no seu dia, não quero divagar sobre o amor, meu caro amigo, pois, eu te amo! E é sobre a amizade que me propus a escrever. Amizade, meu amigo, não tem dia certo para ser celebrada. Celebrá-se todos os dias, todos os momentos. “Todo dia é dia de índio...” diz a velha canção. Todo dia é dia do amigo! Digo eu, meu caro. Todos os instantes de minha vida você me é caro. Não tenho cartões ou papeis de cartas, com frases ou poemas feitos, para expressar minha amizade, meu amor por ti. Isto é muito impessoal, uniformizado, você merece muito mais! Você, não é simplesmente um sujeito, é uma pessoa, não é qualquer pessoa, é singular, é meu amigo! Portanto, meu caro, diga não ao dia do amigo, ao dia dos pais, ao dia das mães, até mesmo ao Natal, que com certeza, hoje é tudo, menos o dia do Cristo! Diga não aos horóscopos, aos livros de auto-ajuda, à cultura de massa, à uniformização de ser. Deixemos de ser sujeitos, globalizados, alienados, uniformizados, da sociedade de bens de consumo, que a todos consome, inclusive a nós mesmos, seres humanos. Lutemos pela nossa liberdade de criação, por nossa dignidade, por nossa condição de individuo! Pareço ser chato, meu caro amigo!... Talvez seja, mas sou singularmente chato... Parabéns pelo seu dia, meu caro amigo!...

Tiago Carvalho Santos,
Aracaju, 20 de julho de 2005.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

PRIMEIRA COMUNHÃO (OU NATALÍCIO)

Ontem á noite quis conversar com Deus
Então abri os braços e corri pro mar.
Pus-me de joelhos ao teu altar
E envolto ás ondas divinas
Fui conduzido ao teu reino celeste
E nas correntes de teu amor
Comunguei contigo...

Louvo-te Senhor! Infinito amor de quem ama
Senhor dos mares e marés. Dos ares e terras
Senhor do fogo e das matas. Da paz e da guerra.
Da continua guerra de mim mesmo. A lenha a alimentar a chama.
A dança do fogo que me queima é uma roda de ciranda.
Sou o caldo da cana que escorre de teu engenho.
Louvo-te Senhor!...

Senhor da fartura e da fome derramai teu olhar sobre nós
Bárbaros domesticados da polis. Brutos de uma razão insana...
Livrai-nos de nossa santa ignorância de todos os dias.
Senhor! Aproximai de nós a sapiência divina
Fazei de nós cavaleiros de tua fé. De tua razão... o amor!
Louvo-te Senhor!...

Ontem á noite conversei com Deus...
Estavam abertas as portas do céu. Estavam lá as ondas do mar...
Fui de alma liberta ao meu batismo. Meu natalício...
Louvo-te Senhor!...
Comunguei contigo... Minha primeira comunhão.
A razão e o amor de hoje e sempre. Amem!

Fogo-corredor, Tiago carvalho,
Aju, 25 de dezembro de 2002

POETA DE VERDADE

Queria ser um poeta de verdade
Destes que quando escrevem
Sobre o amor,
O escreve com tanto amor
E sinceridade,
Que faria até o mais
Seco leitor amar.

Queria escrever um poema de verdade,
Destes que falam de dor,
Queria escrevê-lo
Com tanta melancolia e dor
Que faria até o mais
Seco dos homens chorar.

Tiago Carvalho, fogo –corredor
Aju, 10 de novembro de 2003

sábado, 17 de maio de 2008

Dia dos Namorados ( Ou Poema do Amor de Enganar, ou ainda, Poema do Engano de Amor)

Para celebrar nosso amor de mentira
Um buquê com rosas de plástico
Um poema com palavras doces
Só para engordar tua vaidade!

Meu amor diz que me ama
Com belas palavras de enganar
Ai meu amor!... meu amor!...
E eu deixo-me enganar
Com as palavras de meu amor.

Tiago Carvalho, junho de 2003

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Noctívagos ( ou A Virgindade Burguesa Sob a Égide das Madalenas, ou ainda, A função social da meretriz)

No distante subúrbio das luzes
A noite se cala em murmúrios,
Num prelúdio de amantes em gozo,
Excitados nalgum beco soturno.

À distancia se ouvem seus uivos
De animais ferozes no cio,
Trazidos pelo vento em silvo,
À arrotar o seu hálito frio.

Bêbados, prostitutas e vadios
Vazios em noturno idílio,
Todos em comunhão com o vicio,
Celebram o desejo mais vil.

No arrabalde da pudica urbe,
Onde urge o meretrício,
A castidade burguesa dorme alhures,
Num sono zeloso de armistício

Tiago Carvalho, Fogo-corredor, aju, 29 de abril de 2003.

Aqueles teus olhos... castanhos

Diante daqueles olhos castanhos
Me senti inseguro, estranho.
Estranho?!...
Me sentir inseguro, estranho
Diante daqueles olhos castanhos?

Tiago Carvalho, Pedro Espinheira Carente,
Aju, 09/05/03.

Apalavrar (Ou Lavrar com trato, ou ainda, Pacta Sunt Servanda)

Apalavrar
Dar a palavra.

Apalavrada
Dada a palavra.

Lavrada
A palavra dada...

... é lei.

Tiago Carvalho, Chico Marujo, 18 de maio de 2003.

Esperança( ou o inseto de Pandora)

Fugidia da Caixa de Pandora?...
Leve, verde e delicada,
Pousa-me, no ombro, agora...
... uma esperança!

Tiago carvalho, Chico Marujo, Aju,
7 de julho de 2003

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Solidão

O hábito do solitário é o luto
O egoísmo tua religião
Teu Deus: o ego!

Corre candelária, corre bem rápido
Ilumina minha veste fúnebre
Rasga-me a mortalha!

O sacerdócio do solitário é o orgulho
A solidão teu santo sudário
Tua igreja: o ego!

Corre candelária veste-se como São Jorge
Levanta tua espada de luz e glória
Mata-me o dragão!

Por Mercúrio, Jupiter e Marte!
Hermes, Zeus e Ares
Exu, Oxalá e Ogum!

Ogum nhê!
Abre-me os caminhos
Salva-me de mim mesmo, salva-me!

Tiago carvalho, virada de ano novo( 2006/2007)

Ode ao João do Alho

No Alho todo mundo peca
A gula saciada em dendê;
No prato, todo peixe é moqueca:

Robalo, pescada, cação
Arraia, vermelha e carapeba
A todos acompanha o pirão!

Fritada de siri ou caranguejo
Caldinhos de sururu, aratu e feijão!
Todos me aguçam o desejo

Camarão ao coco ou à alho e óleo,
Pintura de cozinheiro
Em prato de porcelana!

Artes plásticas culinárias sergipana!...

Quero navegar em oceano
Revolto em tempero e pimenta!
Banhar-me num mar
De leite de coco e dendê!

No Alho todo João é santo
Todo rio é Sergipe
Toda ilha é de Santa luzia

No alho toda praia é formosa
Toda barra é dos coqueiros
Toda treze é de julho!

No alho toda noite é regalo
Todo céu de estrelas
Todo pecado é perdoado!

Tiago Carvalho, Aracaju/se
Sábado de aleluia de 2007

Perfume D’Aurora

Na estação das flores
Horrores de insetos no jardim
Rumores de um amor incerto

Flora
Flôr da poesia, alegria da rima
Perfume d’aurora.

Tiago Carvalho, meados de 2000.